“O Brasil é um país governado pelo latifúndio”

sexta-feira 29 de maio de 2009

Carlos Walter Porto Gonçalves, estudioso da questão agrária no Brasil e colaborador da CPT, em especial nos Cadernos de Conflitos no Campo, reflete, em entrevista concedida durante o Encontro Regional de Formação da CPT entre os dias 11 e 14 de maio em Salvador, sobre a concentração de terras no país, comenta o aumento assustador da violência no meio rural e aponta perspectivas para os/as trabalhadores/as e comunidades tradicionais. Para o pesquisador e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), o poder invisível do latifúndio é que mantém a estrutura desigual da sociedade brasileira.

CPT Bahia: Dados atuais divulgados pela CPT mostram que nos últimos anos aumentou o número de mortes ocasionadas por conflito no campo. Qual sua análise sobre a situação atual do campo brasileiro e quais as perspectivas para os/as trabalhadores/as rurais?

Carlos Walter: Na verdade estamos diante de um momento que confirma uma história que sempre esteve marcada por violência: que é a história do campo brasileiro. Sobretudo, porque a sociedade brasileira tem a sua estrutura de poder ancorada, fincada sobre a concentração do poder da terra. Não só desde o período colonial, com a concessão das sesmarias, mas mesmo depois da Independência, do período republicano. Ou seja, em todas as diferentes fases que temos tido em nossa história. Inclusive, a fase atual. Apesar do Lula ter uma trajetória política vinda dos movimentos sociais e que chegou a dizer que achava um absurdo um Presidente da República não fazer a Reforma Agrária, o fato concreto é que ele também não fez. Isso só reafirma o poder de certa forma invisível, um poder que não é eleito, afinal ninguém elegeu o latifúndio para governar o Brasil, mas na verdade é o latifúndio que governa o Brasil. E isso acaba sendo a razão de toda a violência.

O que tem acontecido nos últimos anos, sobretudo se tomarmos os anos 70 como referência a partir da construção da Transamazônica, que foi um momento de grande debate no país, em função dos conflitos que se deram, é que esse padrão de conflitos permanece, em função da construção de grandes obras, seja de hidrelétricas (para a geração de energias, sobretudo para as grandes empresas e indústrias), estradas (geralmente ligadas a portos, para vincular a economia brasileira à exportação, característica que também vem desde o período colonial). E nos últimos anos temos tido, na época do Governo FHC, o Avança Brasil; no Governo Lula, o PAC; tudo isso tem acentuado o avanço sobre as terras. Isso, em minha opinião, tem mantido esse caráter de estrutura violenta que marca a história do campo brasileiro.

Então, acho que há razões históricas que permanecem e razões atuais em função dessas obras de infra-estrutura que aparecem. Por exemplo, o que é uma estrada? Uma estrada acaba proporcionando o acesso a novas terras. Terras que estavam fora do mercado, quando você abre a estrada você dá acessibilidade, dá acesso a essas terras. E o Governo não aproveita essas estradas para fazer a reforma agrária, ao contrário, os grandes acabam avançando sobre essas áreas. E isso que poderia ser considerado uma coisa moderna acaba ligando a uma das coisas mais tradicionais da história do Brasil que são os cartórios, onde essas empresas modernas usam as velhas práticas de grilagem de terras. Então, é a modernização tomando terras, a partir do avanço das rodovias, ferrovias, dos portos, na perspectiva de “ah, vamos exportar!”, e infelizmente esse processo avança quase sempre com uma agricultura empresarial, que faz grandes plantações de monoculturas (girassol, dendê, cana, soja), geralmente voltados para a exportação.

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